A problemática das relações Estado-Autoridades tradicionais,
só a partir dos anos 80 volta a ter a importância que teve, por exemplo, no
período que mediou o fim da Segunda Guerra Mundial e o início das
independências africanas. Com efeito, nos anos 60 e 70, a problemática das
relações Estado-Autoridades Tradicionais perdeu muita da sua antiga importância
científica e o Estado passou a ser o centro de todas as atenções analíticas,
como o único e exclusivo fator político dos países africanos
recém-independentes: vide, no quadro ideológico da época, o agente de desenvolvimento e
de modernidade (Rouveroy van Nieuwaal, 2000a; Crowder &
Ikime, 1970). Naturalmente que, para além das questões sobre a natureza do
Estado, estão também subjacentes as questões das Autoridades Tradicionais. De
fato, as Autoridades Tradicionais designadas por muitos autores por fenómeno
de transformação (Rouveroy van Nieuwaal, 2000b), são portadoras de uma
historicidade efetiva de integração política temporalmente transversal a várias
épocas históricas e a diferentes contextos sociopolíticos, e assumem ainda hoje
um destaque central no que diz respeito à definição e entendimento das relações
sociais estabelecidas no campo político na África. Como em todos os
outros casos, estas relações sociais exprimem-se sob a forma de dominação
política (Javeau, 1998). A análise da natureza destas relações é de especial importância,
porque elas detêm um lugar central no quadro da dita liberalização
política a ocorrer atualmente em África (Bratton & Walle, 1997;
Hyden & Bratton, 1992; Huntington, 1991).
Neste sentido, as investigações sobre estruturas políticas
tradicionais em África mostraram – e mostram – que esta instituição é capaz de
dar um impulso ao que descrevemos como óptica do dinamismo cultural,
uma óptica que toma como ponto de partida o dinamismo e a flexibilidade
característicos das sociedades ditas «tradicionais» (Rouveroy van Nieuwaal,
2000b). Estas sociedades não são de todo em todo entidades imóveis ou
estáticas: evoluem constantemente e transformam-se sem cessar, em função de
estímulos, quer do interior, quer do exterior. É por isso que as competências
sociopolíticas das Autoridades Tradicionais – um fenômeno característico das
sociedades rurais africanas, da sua autoridade e do seu poder político – se
transformam, em múltiplas dimensões do seu caráter e do seu conteúdo ao longo
dos tempos; é sobretudo o ritmo desta transformação sociopolítica que difere
consideravelmente de uma época histórica para outra: dos tempos pré-coloniais
para os tempos coloniais, destes últimos para os tempos pós-coloniais, e mais
recentemente, para o atual contexto dos processos de liberalização
política. Efetivamente, é devido a estas reconhecidas faculdades de
adaptação às exigências da conjuntura política atual, que as Autoridades
Tradicionais se tornaram, de certa maneira, em líderes «sincréticos», ou nas
palavras de alguns autores, em camaleões que protagonizam a síntese entre as
fontes antagônicas da tradição e da modernidade (Rouveroy van Nieuwaal, 2000b).
Em síntese, a sua sobrevivência enquanto agentes políticos
ativos dependem não só dos contextos e processos políticos, mas igualmente da
sua «destreza estratégico-diplomática» no plano da validação dos fundamentos
das suas legitimações por parte das populações rurais, bem como ainda, da
natureza das relações políticas que estabelecem com o Estado, e naturalmente,
do propósito das relações que este, conjunturalmente, estabelece com aquelas
no campo político da África.